Bem-vindos à Capela de São Miguel da Universidade de Coimbra

Bem-vindos à Capela de São Miguel da Universidade de Coimbra

As intervenções na capela de São Miguel servem de mote para falarmos sobre a sua história, o seu papel dentro da UC, as suas características únicas e muito mais.

Junte-se a esta visita, em que aproveitamos para contar o que se andou a fazer por lá e desvendar um pouco daquilo que nem sempre se vê.

Mas comecemos pelo princípio.

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uando se preparava a candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial foram detetadas algumas fragilidades na Capela, ao nível do altar-mor, vidraças dos janelões e na cobertura. Depois de, em 2013, a Universidade de Coimbra, Alta e Sofia serem declaradas Património Mundial pela UNESCO essas necessidades não foram esquecidas e deu-se início ao processo que viria, já em junho de 2015, a dar lugar às intervenções de reabilitação da Capela de São Miguel.
A obra seguiu uma filosofia de intervenção mínima, não intrusiva e em absoluto respeito pela autenticidade.

De acordo com Cláudia Silva, arquiteta e chefe da Divisão de Manutenção e Reabilitação de Edifícios da Universidade de Coimbra, “A intervenção mais significativa e mais pesada foi a da cobertura que já não era intervencionada há muito tempo. As telhas apresentavam fissuração, degradação, apodrecimento”. Por esse motivo todo o revestimento da cobertura foi integralmente substituído.
“Reforçámos e introduzimos alguma tecnologia mais recente que esperamos que ajude a prolongar a longevidade dos elementos existentes”, acrescenta ainda a também projetista da obra.

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uem também acompanhou de perto as intervenções foi Fernando Marques. Para o projetista e assessor técnico da obra o grande desafio deste tipo de trabalho passa por “preservar a autenticidade, não só dos materiais mas também do próprio edifício”.
Outro dos elementos que exigiu um trabalho mais profundo foram os janelões. De facto, os grandes janelões envidraçados em calhas de chumbo estavam num estado de conservação em que já deixavam entrar as águas das chuvas. Por isso, foram completamente desmontados, recuperados numa oficina vitralista e depois novamente montados nos seus locais originais.

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m trabalho desta dimensão implica sempre histórias e o altar-mor revelou-se um dos principais protagonistas. Desde a redescoberta de uma tela de grandes dimensões até ao próprio pavimento da Capela-mor onde foi retirada a alcatifa que o cobria, deixando agora à vista um lajeado pré existente em calcário branco, beije e cinza.

“São estas pinceladas de cor e estas oportunidades de janelas de visualização para o passado que trabalhos desta natureza permitem”
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urpresas também não faltaram no trabalho da arqueóloga Sónia Filipe. Esta intervenção global permitiu “reconhecer um conjunto de estruturas e pré-existências da Capela diferentes daquela que nós hoje visitamos”, adianta a arqueóloga da Universidade de Coimbra. Para a arqueóloga “são estas pinceladas de cor e estas oportunidades de janelas de visualização para o passado que trabalhos desta natureza permitem”.
De entre os trabalhos arqueológicos destaca-se a descoberta de um número supreendente de candeias. Num espaço com cerca de 60 centímetros de diâmetro foram encontrados mil fragmentos de peças cerâmicas, 30 dessas candeias completas e cerca de 60 praticamente completas.

Prevê-se que durante o mês de março sejam terminados os trabalhos de reabilitação da cobertura da sacristia.
A Capela de São Miguel pertence ao conjunto arquitetónico do Paço das Escolas, núcleo histórico da Universidade de Coimbra, e está classificada como Monumento Nacional desde 1910. Desde junho de 2013 integra a lista do Património Mundial da UNESCO.
Para já, a Capela volta a estar de portas abertas para acolher todos os que a quiserem visitar e descobrir os seus tesouros escondidos.



Ver mais fotografias da Capela aqui e aqui

Um pouco de história
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A primitiva Capela de São Miguel remonta ao reinado de D. Afonso Henriques, tendo sido construída como templo privativo do primeiro monarca português. Não se conhecem referências expressas da sua construção, até ao século XVI. A obra atual é inteiramente manuelina pelo traço de Marcos Pires que, após a sua morte em 1521, deixou a obra inacabada. Nas obras de acabamento trabalharam Diogo de Castilho e João de Ruão, entre outros.
O estilo manuelino está desde logo visível no portal lateral, um dos mais simples e belos do seu género, mas também nas enormes janelas da nave central e no arco cruzeiro.

A Capela foi totalmente reconstruída, assumindo uma planta em cruz latina, de nave única com transepto pouco saliente e capela-mor. No interior a decoração é exuberante, através da existência dos painéis azulejares seiscentistas, da pintura dos tetos abobadados em estuque, do retábulo maneirista do altar-mor em talha dourada e pinturas sobre madeira.

Quando a Universidade adquiriu o Palácio, adquiriu igualmente a Capela que manteve o privilégio real. A Capela foi alvo de pequenas remodelações ao longo dos séculos XVII e XVIII. O revestimento azulejar da capela-mor datará de 1613, e a nave foi revestida com azulejos tipo “tapete” que foram fabricados em Lisboa. A pintura do teto deve-se ao lisboeta Francisco Ferreira de Araújo e foi renovado mais tarde por António José Gonçalves das Neves.

O púlpito terá sido utilizado pelo Padre António Vieira em 1663 para proferir o sermão dedicado a Santa Catarina, momento celebrizado no grande ecrã por Manoel de Oliveira, no filme “Palavra e Utopia”, com o ator Lima Duarte a protagonizar o sacerdote jesuíta. O altar da padroeira dos estudantes data já do século XVIII.


Uma das peças mais imponentes da Capela de São Miguel é o órgão, em estilo barroco.
Da autoria de Frei Manuel de S. Bento, organeiro beneditino que iniciou a construção do instrumento em 1732, é uma peça única no contexto do órgão ibérico e da organaria portuguesa. E o orgão da Capela torna-se ainda mais único pois apesar de parecer um só orgão ele reúne três orgãos.
Na fachada são visíveis 184 tubos, 45 verticais e 139 horizontais. E no interior ainda se encontram escondidos mais 2114 tubos.
A caixa está decorada com motivos chineses, conhecidos como “chinoiserie” e semelhantes aos das estantes da Biblioteca Joanina. Ainda hoje funciona em pleno e anima as eucaristias dominicais na Capela e ainda é protagonista em concertos que se realizam naquele espaço.
Mais informações sobre o orgão aqui.

Na Capela está também a estátua de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Universidade de Coimbra.
A relação entre a Universidade de Coimbra e a Imaculada Conceição remonta ao século XVII: nas cortes de 1646, então reunidas em Lisboa, D. João IV tomou a Virgem Nossa Senhora da Conceição por padroeira do Reino de Portugal. Ordenou igualmente que os estudantes na Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau, jurassem defender a Imaculada Conceição da Mãe de Deus.
Como já é tradição celebra-se sempre, na Capela, no dia 8 de dezembro a missa de homenagem à Padroeira da Universidade de Coimbra.


Cronologia das intervenções registadas

  • 2015/2016

  • 2012

  • 1986/1987

  • 1972/1973

  • 1969

  • 1957/1969

  • 1941/1948

  • 1939

  • 1859

  • Séc. 18

  • 1773/1775

  • 1695/1697