Alguns dos mais preciosos manuscritos de música antiga conservados na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (UC) estão prestes a ganhar nova vida, através d’O Bando de Surunyo, braço laboratorial do Projeto Mundos e Fundos do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da UC. O grupo está a preparar a gravação de um disco de música de Natal escrita no mosteiro de Santa Cruz (Coimbra) em meados do século XVII.

O CD, que deverá ser gravado em finais deste ano e editado em meados de 2020, vem dar expressão a parte do trabalho do Projeto Mundos e Fundos, que é coordenado pelos professores Paulo Estudante e José Abreu, e faz o estudo e divulgação de fontes musicais portuguesas, sob o ponto de vista filológico, editorial e interpretativo. “A música sem se escutar é uma coisa mais pobre. Por isso, os grupos associados ao Projeto Mundos e Fundos – como o nosso – têm a missão de tornar conhecida a música antiga que está albergada nos manuscritos da Biblioteca Geral”, explica Hugo Sanches, investigador do CECH e responsável pela direção musical e artística d’O Bando de Surunyo.

O ensemble – que foi formado em 2015 e reúne cantores e instrumentistas profissionais, muitos deles especializados em música antiga (anterior ao século XIX) – decidiu lançar um disco para reunir os frutos dos seus primeiros anos de atividade e registar num formato audível canções que há séculos não eram ouvidas. “Para ser percecionado, o património musical tem de ser interpretado. Só assim é que ele se torna inteligível e ganha sentido”, aponta Hugo Sanches, sublinhando o valor histórico e artístico destas composições. “São documentos que revelam algo sobre o tempo que se vivia na altura: a guerra da Restauração, a forma como eram vividas festas como o Natal ou a Páscoa… E a música é muito agradável de se ouvir”, explica o diretor d’O Bando de Surunyo, que assim pretende mostrar “o caráter e a vitalidade” da música antiga ibérica – bem menos conhecida do que a obra sua contemporânea de origem germânico-italiana.

Dar vida a música que não é ouvida há séculos comporta vários desafios: o principal é perceber como transpô-la para a atualidade sem a desvirtuar. “Há códigos semânticos, poéticos e políticos que seriam muito percetíveis pelo público da altura e agora não são. Muita da música de Natal é do tempo da Restauração e está cheia de jogos de palavras e alusões ao objetivo independentista que o Mosteiro de Santa Cruz então assumia. Transpor isto de forma que faça sentido para o público é o grande desafio. Até porque este é um património musical extraordinário: é música que está desenhada para ter um impacto no público”, descreve Hugo Sanches.

O público que já conhece O Bando de Surunyo tem correspondido – inclusive, participando na campanha de crowdfunding que recolheu cerca de 5500 euros para alavancar o projeto da gravação do CD. Depois de assegurados outros apoios institucionais (o grupo continua aberto a todos os contributos de quem os quiser contactar através da sua página na rede social Facebook), a obra vai avançar no final do ano.

Delfim Leão, Vice-Reitor da UC para a Cultura e a Ciência Aberta, destaca a importância do projeto: “Trata-se de uma iniciativa notável a vários níveis, pela forma como permite combinar o restauro, transcrição e edição moderna dos manuscritos musicais à guarda da Biblioteca Geral da UC, com a vertente performativa e a investigação em Estudos Musicais. Desta forma, aprofundam-se competências especializadas e dá-se ainda a conhecer à comunidade académica e ao público em geral verdadeiros tesouros que agora se começam a descobrir e partilhar em toda a plenitude”.

Este projeto “constitui, ainda, uma claríssima expressão das vantagens decorrentes da Ciência Aberta e do impacto que gera na Sociedade, como ilustra o “2019 Early Music Gramophone Award”, recentemente atribuído ao grupo Cupertinos, igualmente embaixador da música polifónica renascentista associada à matriz cultural da Universidade de Coimbra”, acrescenta Delfim Leão.

Por sua vez, Hugo Sanches espera que estes exemplos incentivem grupos congéneres a descobrirem o acervo musical inexplorado que a Biblioteca Geral da UC conserva. “É um acervo extraordinário, do qual conhecemos apenas a superfície, e que merece mesmo ser estudado”, conclui.

 

Texto: Rui Marques Simões
Vídeo: Marta Costa e Karine Paniza

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