Entre 1985 e 2017, a obesidade aumentou mais nas zonas rurais do que nas cidades, revela um estudo internacional sobre as tendências globais do Índice de Massa Corporal (IMC), liderado pelo Imperial College London e publicado a 10 de maio na prestigiada Nature.

O estudo, que envolveu um milhar de investigadores, avaliou os dados de altura e peso de mais de 112 milhões de adultos com mais de 18 anos em áreas urbanas e rurais de 200 países. Globalmente, o IMC subiu em média 2,0 kg nas mulheres e 2,2 kg nos homens. Já nas cidades, o aumento foi de 1,3 kg e 1,6 kg em mulheres e homens, respetivamente.

De acordo com as conclusões, Portugal segue esta tendência. A investigadora Cristina Padez, do Centro de Investigação em Antropologia da Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), que participou no estudo, afirma que estes resultados «chamam a atenção para a necessidade de uma mudança de paradigma nas políticas de saúde pública, que até aqui têm sido muito focadas na obesidade urbana. Para contrariar a tendência revelada neste estudo, as políticas devem agora focar-se no meio rural, com taxas a produtos ultraprocessados que podem ser aplicadas globalmente nestas zonas, entre outras iniciativas, de modo a prevenir o aumento de peso».

O estudo mostra que, «ao contrário do que se pensava, a obesidade aumentou mais nas zonas rurais do que nas zonas urbanas, desmistificando a ideia de que no meio rural é tudo saudável. Em muitos aspetos, sim, mas não podemos esquecer que, devido à globalização e ao desenvolvimento económico, as zonas rurais passaram a ter acesso a um conjunto de alimentos pouco saudáveis, os alimentos ultraprocessados ricos em sal, gorduras saturadas e açúcar. Como afirma um dos autores do estudo, assistiu-se a uma urbanização da vida rural», observa a docente e investigadora do CIAS. Até aqui a urbanização foi vista como um dos fatores etiológicos da obesidade não tendo sido avaliada a diferença entre as zonas urbanas e rurais. Este estudo é o primeiro a fazer esta abordagem mundial.

Por outro lado, afirma Cristina Padez, «as pessoas que vivem nos meios rurais de muitos países estão em desvantagem em relação às que vivem nas cidades, por exemplo, no acesso aos cuidados de saúde, saneamento, água potável, infraestruturas de lazer e desportivas, etc.».

A amostra trabalhada pela investigadora da FCTUC neste estudo foi constituída por dados relativos a 899.578 recrutas portugueses, jovens adultos do sexo masculino de todo o país, de todos os estratos sociais e regiões, que participaram nas inspeções militares, no período 1985-2000.

 

FCTUC (Cristina Pinto)

Redes Sociais

Os comentários estão fechados

« »