Entre o amor a uma pessoa e a um clube: estudo mostra pela primeira vez como se resolve um dilema de “Guerra dos Sexos” no cérebro

Ago 23, 2018

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Miguel Castelo Branco e Sónia Costa
Miguel Castelo-Branco e Sónia Brito-Costa. O projeto conta ainda com os investigadores Catarina Duarte e Ricardo Cayolla.
Fotografia: © UC | Milene Santos

Depois de ter demonstrado como um adepto de futebol pode viver o “desporto-rei” como um amor romântico, um grupo de investigadores do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS) da Universidade de Coimbra (UC) veio agora revelar como se resolve, no cérebro de um fã, o dilema entre as paixões por uma pessoa e por um clube. O trabalho, que é o primeiro a estudar neurocientificamente um dilema da teoria de Jogos, a Guerra dos Sexos, foi publicado este mês na Scientific Reports, revista do grupo da Nature.

Já era conhecido de um estudo anterior que a paixão pelo futebol se assemelha ao amor romântico, ao despertar emoções que atravessam a fronteira entre o amor tribal e o fanatismo e ao ativar áreas cerebrais ligadas à emoção e recompensa (como acontece no amor romântico). Isto pode levar a tensões entre as várias formas de amar de um individuo e implicar tomadas de decisão difíceis.

O conflito entre as opções por atividades relacionadas com ambas as formas de amor (por exemplo, entre estar com a pessoa amada ou ir ao futebol), foi investigado no ICNAS usando o famoso modelo da “Guerra dos Sexos”, derivado da “Teoria dos Jogos”. Num estudo de imagiologia cerebral e comportamento, os investigadores Catarina Duarte, Miguel Castelo-Branco (coordenador), Sónia Brito-Costa e Ricardo Cayolla analisaram o cérebro de 44 adeptos e membros das claques de Académica e FC Porto, cujo nível de paixão (amor tribal) já tinha sido avaliado através de scores de avaliação psicológica (num estudo pioneiro divulgado em 2017).

Desta vez, os participantes foram expostos a conflitos de decisão inspirados no referido modelo da “Guerra dos Sexos”, em que eram conhecidos os valores das opções de cada um, tanto a nível individual como enquanto membro de um par. Foi a primeira vez que se estudou este modelo do ponto de vista neurocientífico.

O estudo, publicado a 14 de agosto na Scientific Reports (magazine do grupo da conceituada revista Nature), vem mostrar uma nova cartografia cerebral da tomada de decisão afetiva, revelando o papel importante de diferentes áreas do córtex frontal do cérebro humano nas decisões que envolvem dilemas racionais e afetivos complexos. Certas regiões, como o córtex orbitofrontal, relacionam-se com a avaliação da dimensão afetiva; regiões frontais mediais relacionam-se com o processamento da reciprocidade; e outras mais laterais com o processo deliberativo que originava a escolha final.  As várias áreas identificadas correspondem a uma parte do cérebro cuja evolução foi mais tardia, e que nos torna intrinsecamente humanos.

 

Rui Marques Simões

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