Foi demonstrado, pela primeira vez, que água não-tratada – proveniente da chuva, de rios ou até do mar – pode ser usada como solvente na produção de polímeros sintéticos por polimerização radicalar por transferência de átomo (ATRP na sigla original). Esta descoberta, capaz de revolucionar a produção destas macromoléculas, tornando-a bem mais barata e ecológica, foi feita recentemente por uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Tema de capa na revista Polymer Chemistry e objeto de destaque na Chemistry World, duas publicações de referência mundial na área da Química de Polímeros, o artigo “Pushing the limits of robust and eco-friendly ATRP processes: untreated water as the solvent”, que tem Jorge Coelho e Patrícia Mendonça como autores principais, revela uma conclusão surpreendente: afinal, não é necessário usar água ultrapura num dos processos mais comuns de polimerização para a preparação de materiais com propriedades controladas, o ATRP (utilizado na produção de polímeros presentes em produtos quotidianos como componentes eletrónicos, cosméticos ou fármacos). “Fizemos algo completamente fora da caixa. Demonstrámos pela primeira vez a possibilidade de se usar uma água não-tratada – isto é, extraída diretamente do mar, de rios, da chuva … – para conseguir sintetizar polímeros de estrutura controlada. Isso vem provar também a robustez do sistema de produção que desenvolvemos”, explica Jorge Coelho.

 

 

Até agora “toda a gente usava água ultrapura (que passa por várias etapas de tratamento), porque existia o receio de que as impurezas da água interferissem no sistema de polimerização”, recorda o docente e investigador do Departamento de Engenharia Química da FCTUC. “Isto parece trivial, por ser só substituir água por água. Mas não é, estas águas têm uma composição química e iónica completamente diferente da água pura e poderiam não resultar. Neste caso provámos que resultou e que a técnica de polimerização em causa é bastante robusta e tolerante a várias composições da água”, sublinha, por sua vez, Patrícia Mendonça.

De resto, a descoberta da equipa de investigadores da UC – composta também por Andreia Oliveira, Jessica Ribeiro, Ana Castilho e Arménio Serra – impressionou até o inventor da técnica de ATRP, Krzysztof Matyjaszewski. “É muito interessante ver quão robusta e benigna a técnica ATRP se tornou e [perceber que] pode até ser utilizada com água não-tratada como água do mar, com altas concentrações de cloreto de sódio e outros sais”, destacou o químico polaco-americano.

 

Texto: Rui Marques Simões

 

Vídeo: F. Fernandes e Milene Santos

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