Foi notícia na semana passada o facto de a Universidade de Coimbra (UC) ter ficado abaixo da posição 500 no Academic Ranking of World Universities – ARWU, mais conhecido por ranking de Xangai (http://www.shanghairanking.com/). Com efeito, ficou no intervalo 501-600, mais concretamente na posição 512. Embora este resultado seja contrariado por muitos outros indicadores bem mais positivos que têm vindo a público, importa analisar este caso com cuidado.

Diga-se, em primeiro lugar, que esta descida se revela paradoxal, pois o próprio ranking mostra que, em termos de produção científica global, a UC se está a aproximar, e não a afastar, da universidade que está na primeira posição (Harvard). É também paradoxal porque, em julho passado, quando a mesma instituição divulgou os resultados dos rankings por áreas científicas ( http://www.shanghairanking.com/Shanghairanking-Subject-Rankings/index.html ) a Universidade de Coimbra teve uma enorme subida. Passou a estar presentes nos rankings de 31 áreas, de um total de 54, quando em 2017 só estava em 19. A UC ficou nos primeiros 100 do mundo em cinco áreas: Telecommunication Engineering, Instruments Science & Technology, Civil Engineering, Transportation Science & Technology, Remote sensing. Ficou nos primeiros duzentos do mundo em Pharmacy & Pharmaceutical Sciences, Electrical & Electronic Engineering, Computer Science & Engineering, Automation & Control.

Em Portugal, a UC ficou em primeira posição isolada em Telecommunication Engineering, Computer Science & Engineering, Transportation Science & Technology, e em primeiro lugar empatados em Instruments Science & Technology, Human Biological Sciences e Medical Technology. Na maioria das outras áreas, ficou em segundo ou terceiro lugar.

Para perceber este paradoxo é necessário compreender a metodologia seguida no ARWU, que pode ser consultada em http://www.shanghairanking.com/ARWU-Methodology-2018.html. Tem seis critérios:

– 10% em função dos antigos alunos com prémio Nobel ou medalha Fields. Nenhuma universidade portuguesa tem qualquer pontuação neste critério.

– 20% em função dos investigadores que receberam um prémio Nobel ou medalha Field. Só a Universidade de Lisboa (UL) tem pontos neste item, graças ao Prof. Egas Moniz, que obteve o Prémio Nobel em 1949 quando era professor nessa universidade.

– 20% em função dos professores da instituição que estão nos 1% mais citados da sua área de acordo com a Clarivate (Highly Cited Researchers – https://clarivate.com/hcr/). Os professores de universidades portuguesas presentes nesta lista são poucos: um da Universidade de Lisboa, um da Universidade de Aveiro, um da Universidade do Minho, e duas do Politécnico de Bragança. A Universidade de Coimbra não tem nenhum, tal como a Universidade do Porto.

– 20% em função do número de artigos nas revistas Nature e na Science, e do tipo de autoria nesses artigos. O número de artigos com participação de professores de universidades portuguesas nestas revistas tem sido baixo; foi neste indicador que se deu a descida da UC. Em 2012 a UC participou em quatro artigos, um número bom, pois em regra participa em 1 a 3 por ano. Foi graças a esse valor que a UC subiu acima da posição 500 do ranking em 2013. A descida da UC neste ano deve-se essencialmente ao facto de as publicações de 2012 terem deixado de ser contabilizadas, pois neste indicador só são tidos em conta os últimos cinco anos.

– 20% em função dos artigos em revista indexados no Science Citation Index (concretamente o Science Citation Index-expanded e o Social Science Citation Index). Neste indicador a UC tem vindo a subir sucessivamente, e voltou a fazê-lo este ano.

– 10% em função da produtividade média dos professores da instituição. Para as instituições portugueses este indicador não é calculado pelos produtores do ranking, sendo obtido por média pesada dos outros indicadores, pelo que não tem significado.

No resultado final, na escala de 0 a 100 usada no ranking, a UC ficou a apenas 12 centésimas da posição 499. Desceu 9 centésimas em relação ao ano passado. Estes dados parecem contraditórios: de facto, mesmo com a pontuação do ano passado, já teria ficado abaixo da posição 500 se tivesse prevalecido o quadro do presente ano. Aliás, a UC está agora com mais 63 centésimas do que em 2013, quando subiu pela primeira vez acima do patamar dos 500. Isto significa que todos os anos os patamares têm vindo a ser mais exigentes, muito graças à subida que tem vindo a ser conseguida por instituições de outras geografias, em particular da Ásia.

No caso de Portugal, a UL está à frente da UC porque tem o prémio Nobel já mencionado, tem um investigador no Highly Cited Researchers, e tem mais artigos quer nas revistas Nature e Science quer no Science Citation Index. A Universidade do Porto, por seu turno, surge à frente da UC porque tem mais artigos na Nature na Science e no Science Citation Index. Acresce ainda o facto de o indicador da produtividade média não ser usado para Portugal. Nestes termos, as universidades de maior dimensão são sempre beneficiadas.

As Universidades do Minho e de Aveiro têm menor produção científica que a UC, mas conseguem ficar acima da posição 500 graças ao investigador que figura nos Highly Cited Researchers. Abaixo da posição 500 e até à posição 1000 só há mais uma instituição portuguesa: a Universidade Nova de Lisboa, na posição 578.

Em termos gerais, a produção científica da UC tem vindo a aumentar. Concretamente, no indicador de artigos no Science Citation Index a nossa pontuação tem evoluído bem, de 32,5 em 2013 para 34,4 em 2018, o seu valor mais alto de sempre. Esta subida tem ainda mais significado se tivermos em conta que os indicadores do ranking de Xangai são calculados como uma fração da instituição colocada em primeiro lugar nesse item, que este ano é a Universidade de Harvard. Isso significa que a UC se está a aproximar de Harvard, não a afastar-se.

Esta análise mostra também que os diversos rankings, mesmo os produzidos pela mesma organização, como é o caso, têm frequentemente resultados bem díspares. Esse efeito é ainda mais acentuado entre rankings de organizações diferentes.

Para melhorar o seu desempenho a UC está a seguir uma forte política de mérito em todos os concursos, seja de entrada seja de progressão, de melhoria contínua do seu funcionamento, e a reforçar a sua condição de universidade global. É isso que vai continuar a fazer.

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