A Universidade de Coimbra (UC) volta a estar na vanguarda global na área da produção de radiofármacos. O seu Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS) vai acolher um ciclotrão de dupla energia, desenvolvido em cooperação com a multinacional belga Ion Beam Applications (IBA), a maior fabricante mundial de ciclotrões. Este inovador acelerador de partículas, pioneiro a nível mundial, permitirá otimizar a produção de Gálio-68, um dos isótopos para diagnóstico de cancro fabricados no ICNAS.

A dupla energia – o facto de permitir a extração do feixe de protões a 13 a 18 MeV (milhões de eletrões-volt) – é o grande avanço do novo acelerador de partículas. “Além dos 18 MeV convencionais dos modelos disponíveis no mercado, este ciclotrão permite a extração a 13 MeV, que otimizam a produção de Gálio-68”, explica Francisco Alves, investigador do ICNAS e coordenador do projeto.

O Gálio-68 é um isótopo usado na marcação dos radiofármacos que se utilizam em técnicas avançadas de diagnóstico do cancro, por Tomografia por Emissão de Positrões (PET), e desempenha um papel fulcral nas novas abordagens que combinam o diagnóstico e o tratamento da doença (conhecidas como “teranóstica”). O ICNAS tem estado na vanguarda do desenvolvimento de processos de produção deste isótopo, com uma metodologia inovadora utilizando alvos líquidos, patenteada pela Universidade de Coimbra e que tem vindo a ser replicada em outros centros clínicos e de investigação de referência à escala mundial.

O diretor do ICNAS, Antero Abrunhosa – que é autor dessa patente, em conjunto com Francisco Alves e Vítor Alves –, sublinha que “a instalação do primeiro modelo de ciclotrão com dupla energia é mais um marco na estratégia translacional que tem vindo a ser seguida no ICNAS, ligando à aplicação clínica a investigação que se faz na Universidade de Coimbra, tendo sempre em vista uma rápida e eficaz implementação para benefício dos doentes”.

“Este novo acelerador vem abrir caminhos pioneiros à investigação na Universidade de Coimbra, pois ficaremos com capacidade para estudar e produzir uma vasta gama de isótopos com aplicação médica, a mais baixos custos. Este segundo ciclotrão do ICNAS torna a Universidade de Coimbra uma instituição única no mundo nesta área de conhecimento”, afirma o Reitor da UC, João Gabriel Silva.

O ICNAS, que completa dez anos em 2019, já desenvolveu processos de produção para mais de 20 moléculas (com utilização clínica e de investigação em PET) e é a instituição de referência mundial na produção de gálio-68, cobre-64 e cobre-61 em alvos líquidos.

O projeto de desenvolvimento e implementação do ciclotrão de dupla energia envolveu um investimento de mais de dois milhões de euros, suportado em partes iguais pela Universidade de Coimbra e pela IBA. “O seu retorno está na possibilidade de dar acesso a novos métodos de diagnóstico avançado para doentes oncológicos”, conclui Antero Abrunhosa. A IBA antecipa que – depois de aperfeiçoado em Coimbra – muitas outras instituições venham a interessar-se por este inovador acelerador de partículas.

 

Rui Marques Simões

Redes Sociais

Os comentários estão fechados

« »