O admirável mundo não tão novo das júnior empresas e iniciativas

São todos estudantes universitários. Mas isso não chega. São também empresários e o trabalho não os assusta. Gerem júnior empresas e iniciativas que de júnior não têm nada.

Maria Cano, Marta Costa
10 março, 2026 ≈ 2 mins de leitura

© Felippe Vaz | NMAR

Pierre-Marie Thauvin. Assim se chamava o estudante da L'Ecole Supérieure des Sciences Economiques et Commerciales de Paris, que criou, em 1967, a primeira júnior empresa. O objetivo, válido ainda hoje, passava por aplicar, na prática, a teoria que estava a aprender.

O resultado está à vista. A Junior Enterprises Global, organização internacional que representa o movimento das júnior empresas (JE), contabiliza mais de 2 100 JE espalhadas por 57 países. Envolvem mais de 80 000 estudantes que realizam, anualmente, mais de 27 000 projetos e totalizam mais de 25 milhões de horas de formação de competências.

No nosso País, a secretária-geral da JE Portugal, federação nacional de júnior empresas portuguesas, Gabriela Gala, indica que o movimento júnior, “uma das maiores plataformas de empreendedorismo jovem a nível mundial” representa 26 JE pertencentes a 13 Instituições de Ensino Superior. Juntam mais de 1 440 estudantes e as principais áreas de atuação passam por consultoria estratégica e de gestão, marketing e comunicação, tecnologia, financeira e organização de eventos, entre outras. A JE Portugal acompanha ainda 19 júnior iniciativas (JI), entendidas como um estágio anterior ao de JE.

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“Uma júnior iniciativa corresponde à fase inicial de desenvolvimento de uma futura júnior empresa. Surge da iniciativa de estudantes que procuram ir mais além do percurso académico tradicional, assumindo um papel ativo na promoção do empreendedorismo e na criação de impacto através da prestação de serviços reais ao mercado”, explica Gabriela Gala.

E o que é uma júnior empresa? De acordo com a JE Portugal, é uma “organização sem fins lucrativos, sem convicções religiosas ou políticas, enquadrada na lei, constituída e gerida integralmente por estudantes do Ensino Superior, proporcionando aos seus membros a oportunidade de aplicarem conhecimentos teóricos na prática, através da realização de projetos ou estudos requeridos por empresas, instituições ou clientes individuais”.

Para pertenceram à JE Portugal as JE passam por uma auditoria anual, “garantindo o cumprimento dos padrões de qualidade, profissionalismo e sustentabilidade exigidos pelo movimento júnior”. Na prática, como em Portugal não há um enquadramento legal para as JE e JI, nem todas as estruturas constituídas como tal acabam por estar ligadas à JE Portugal.

Nós por cá ou JE e JI na UC

“A Universidade de Coimbra (UC) tem atualmente 11 júnior iniciativas ativas, das quais duas são reconhecidas como júnior empresas pela JE Portugal: Jeknowledge e JEEFEUC”. O enquadramento é dado pela Pró-Reitora da UC para o Empreendedorismo, Gabriela Fernandes.

Estas estruturas estão presentes em várias faculdades da UC e têm diferentes áreas de atuação: desde a gestão à saúde, passando pelo design e a comunicação, até ao direito e à inteligência artificial. E não se esgotam nestes temas.

As JE e JI "promovem ativamente a capacitação dos nossos estudantes"

Gabriela Fernandes não tem dúvidas quanto ao “papel fundamental” que têm na UC, pois “promovem ativamente a capacitação dos nossos estudantes, funcionando como escolas de competências empreendedoras e mentalidade inovadora”. Além disso, a Pró-Reitora destaca que as JE e as JI dão aos estudantes a oportunidade de “pensar criativamente, assumir riscos calculados, comunicar ideias de forma estruturada e trabalhar em contextos próximos da realidade empresarial”, desenvolvendo competências transversais essenciais, como a “liderança, gestão, trabalho em equipa e orientação para resultados”.

Até porque as JE “prestam serviços reais a clientes reais, atuando num contexto de mercado”, ressalva a secretária-geral da JE Portugal, Gabriela Gaia. Contudo, é necessário perceber que “enquanto organizações sem fins lucrativos, os rendimentos gerados” são reinvestidos na própria estrutura, por exemplo, “na formação e capacitação dos membros, na aquisição de recursos e materiais necessários ao funcionamento da organização e no investimento contínuo na melhoria e profissionalização dos seus processos internos”, complementa.

E, na UC, parece que as JE e as JI vieram para ficar

A primeira JE criada na UC faz em novembro 20 anos, mas também há JI que completam em 2026 apenas dois anos de vida.

A criação destas organizações sem fins lucrativos nem sempre é fácil e envolve alguma burocracia. E ainda há a questão do espaço. “As júnior empresas e iniciativas procuram junto da UC, sobretudo, recursos físicos, enquadramento institucional e orientação científica junto dos docentes”, revela Gabriela Fernandes.

Algumas estruturas conseguem espaços dentro das faculdades a que pertencem, mas isso nem sempre é possível. Por isso, a UC disponibiliza um espaço físico no Polo II. Mas o apoio da Universidade não acaba aqui. “Através do Student Hub e do trabalho desenvolvido em articulação com as júnior empresas da UC, em particular da JEEFEUC, enquanto primeira júnior empresa da UC, tem-se procurado apoiar a evolução das júnior iniciativas para o estatuto formal de júnior empresa”, esclarece a Pró-Reitora.

A responsável acrescenta também que as JE e JI podem contar com o apoio do Instituto Português do Desporto e Juventude no acesso ao estatuto de dirigente associativo, que “confere um conjunto de regalias académicas e institucionais aos seus membros”.

Palavra de ordem: empreendedorismo   

Para Gabriela Fernandes, tal como para os responsáveis das várias estruturas ligadas à UC, o espírito empreendedor é obrigatório para quem se mete numa “empreitada” destas.

“Hoje, mais do que o curso de origem, valoriza-se a atitude: estudantes curiosos, proativos, com vontade de aprender fora da sala de aula e de aplicar conhecimentos em contextos reais”, assevera Gabriela Fernandes.

A Pró-Reitora ressalva que “devem ser estudantes com capacidade de trabalhar em equipa, comunicação eficaz e pensamento crítico, disponíveis para assumir desafios e gerir projetos com clientes reais, desenvolvendo uma mentalidade orientada para a resolução de problemas”. E, claro, sem esquecer o “sentido de missão e a vontade de impactar positivamente a Universidade e a sociedade”.

Durante março, abril e maio, a Divisão de Comunicação e Marketing da UC vai apresentar, todas as terças-feiras, as júnior empresas e iniciativas da Universidade de Coimbra.

Júnior Empresas e Júnior Iniciativas da UC


Ano de Criação

Nome

Área de Atuação

2006

JEEFEUC

Consultoria e gestão

2008

jeKnowledge

Consultoria tecnológica

2017

Molecular JE **

Química

2019

Solve

Sustentabilidade

2021

Pollux

Indústria especial

2022

JuniRHumo

Recursos Humanos

2022

Íris Comunicação **

Comunicação

2023

JEnius

Consultoria logística

2023

UniHealth

Saúde

2023

JEFAI

Inteligência Artificial

2024

LEX LAB UC **

Direito

2024

UNInnovation * **

Inovação

*atualmente inativa

**não reconhecida como JI ou em processo de reconhecimento pela JE Portugal