A Universidade de Coimbra guarda-os há centenas de anos e estão agora a ser recuperados para que possam cumprir a sua função original: transformarem-se em música e ser um património de todos. Esta é a história da nova vida dos manuscritos musicais que estão à guarda da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC).

Não é possível contar a sua história sem falar do “Mundos e Fundos – Mundos Metodológico e Interpretativo dos Fundos Musicais”, um projeto do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), que trabalha na identificação e estudo do património musical preservado em arquivos e bibliotecas (e no seu contexto cultural e literário). O “Mundos e Fundos” não esquece também a formação de pessoas capazes de trabalhar essas fontes filológica e musicalmente, tornando-as acessíveis a um público científico e artístico mais amplo. Foi através deste projeto que alguns dos manuscritos, agora em recuperação, começaram a ser trabalhados do ponto de vista musicológico, de investigação e de interpretação. Segundo Paulo Estudante, um dos coordenadores do “Mundos e Fundos” e docente da FLUC, “alguns manuscritos, seja do século XVI ou XVII, estavam a necessitar de uma intervenção urgente, pois, entre outras coisas, tinham sofrido bastante humidade e agressões e a tinta ferrogálica estava a corroer o próprio papel. Estávamos a perder notas musicais ao manusear os manuscritos”.

“ter manuscritos que nos permitam trabalhar, a nós e às gerações futuras”

Assim, e graças ao esforço financeiro da Reitoria da UC, da BGUC e do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o processo de recuperação dos manuscritos foi iniciado. Em novembro do ano passado começaram a partir, em pequenos contigentes de seis manuscritos, para uma oficina de restauro – a Deltos, em Cuenca (Espanha). A cada quatro meses chega uma remessa já restaurada e é enviada outra. O objetivo, de acordo com Paulo Estudante, é “consolidar os manuscritos para que possam ser manuseados por muito mais tempo”. Não se quer transformar o velho em novo mas sim “ter manuscritos que nos permitam trabalhar, a nós e às gerações futuras”. Para já o plano é restaurar, numa primeira fase, 16 manuscritos – uma coleção denominada Cartapácios, do século XVII – que deverá estar concluída até final de 2020. Numa segunda fase está previsto intervencionar alguns manuscritos dos século XVI, que são documentos “de maior dimensão, com outro tipo de problemas”, adianta o docente.

Para o Diretor da BGUC, João Gouveia Monteiro, devolver a dignidade a estes materiais é uma tarefa prioritária. “Há um espólio valiosíssimo de música coral de Santa Cruz que está praticamente ilegível e que era muito urgente restaurar, sob pena de se perder para sempre”, refere. “Hoje é um dia feliz”, assinala o responsável quando se refere à chegada da primeira remessa de manuscritos recuperados.

Também o Vice-Reitor para a Cultura e Ciência Aberta da UC, Delfim Leão, se mostra satisfeito com o início do processo e frisa que se está a transformar património tangível em intangível. “O primeiro passo é a recuperação dos materiais, a parte tangível; depois de curados e acautelada a sua sobrevivência para o futuro, são digitalizados e começa o processo de estudo dessa documentação, de transferi-los para notação moderna. Aqui são preparados para o seu fim último que é devolvê-los ao público sob a forma de um espetáculo e, nesse momento, teremos concluída a fase de abordagem desta documentação transformando um património tangível em intangível, porque a partir dessa altura passa a pertencer a todos”, denota.

A transformação dos manuscritos em música está precisamente a ser feita pel’ O Bando de Surunyo, braço laboratorial do projeto Mundos e Fundos. O ensemble, formado em 2015, reúne cantores e instrumentistas profissionais, muitos deles especializados em música antiga (anterior ao século XIX) e têm previsto o lançamento do seu primeiro CD este ano (mais informações no canal Youtube e página Facebook do grupo)

A recuperação destes manuscritos insere-se ainda no âmbito da ciência aberta, uma das apostas da atual reitoria. Segundo Delfim Leão, “há todo um processo em ciclo, que se renova constantemente, e que consubstancia bem aquilo que a ciência aberta pretende: que é convocar todos os agentes, formais ou informais, para a forma de fazer e entender a ciência”. Depois de digitalizados os documentos serão um “suporte de investigação que permitirá que pessoas que não teriam contacto com este material, possam ter, em qualquer parte do mundo”, denota o Vice-Reitor e acrescenta que quando se transportam estes textos para a sua “vertente de espetáculo e performance estes são apropriados por toda a comunidade”.

 

 

Estado de alguns dos manuscritos antes da recuperação:

P1500003

P1490942

P1500003

 

F.Fernandes e Milene Santos

 

 

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